• Início
  • Turmas
  • Cursos
  • Webinars
  • Artigos
  • Drive
  • Início
  • Turmas
  • Cursos
  • Webinars
  • Artigos
  • Drive

PORTAIS DE BABEL - Luis Antonio Bittar Venturi

12/04/2022 às 14:11
Nanami Sato
@Nanami | Bibli-ASPA
Seguir


Parecia que aquele primeiro semestre de 2021 seria como os outros, com as aulas sendo ministradas "novo-normalmente" através de um grupo de Whats App, o mais acessível dos meios de comunicação pandêmicos.


Parecia... Até recebermos da coordenação, eu e meu fiel assistente Victor, a lista dos novos alunos: alguns casais iemenitas, um casal sírio, um palestino, um egípcio e os sempre presentes haitianos. É interessante como a composição das turmas reflete a geopolítica mundial. Se antes tínhamos turmas com alunos predominantemente sírios, agora, a chegada dos iemenitas nos conscientizou da situação catastrófica em que vive a antiga Arabia Felix, terra da rainha de Sabá. E os onipresentes alunos haitianos, sempre nos remetendo ao país mais pobre do hemisfério ocidental, e ainda acometido por sucessivas catástrofes naturais, políticas e sociais. 


Mas o que tudo isso tem a ver com a dinâmica das aulas? 


Bem, inicialmente, ocorreu um fato curioso. Os maridos das iemenitas e da síria assistiram a apenas duas ou três aulas, talvez, pensei eu, para se assegurarem de que ali era um ambiente, embora não convergente com os preceitos islâmicos, decente. Assegurando-se disso, eles sumiram e foram, provavelmente, fazer algo que lhes interessava, como ganhar o sustento da família. Parecia que, para eles, falar um português básico que lhes permitisse trabalhar já era o suficiente para irem à luta e que frequentar aulas para aperfeiçoar a escrita, a pronúncia e um pouco da gramática seria um capricho de suas esposas. E as moças permaneceram (pelo menos, suas vozes). Ocorreu que, a despeito de o ambiente ser política e culturalmente correto, como é esperado de um projeto da Bibli-ASPA com a Universidade de São Paulo, reconhecido pela ONU como de relevância para o desenvolvimento sustentável; apesar de todas essas credenciais, as alunas árabes não mostravam seus rostos, nem mesmo cobertos. Falavam, perguntavam, respondiam, mas não abriam as câmeras para interagirem com os outros alunos... E eu sentia-me como se estivessem me olhando por um buraco de fechadura: só elas podiam me ver, mas eu nunca as vi durante todo o semestre. Tudo bem! É um ambiente em que as diferenças culturais devem ser asseguradas e respeitadas, embora, como professor, eu esteja convencido de que o contato pessoal, visual, fortaleça os laços e contribua para o processo de ensino-aprendizagem. Mas temos que ir nos adaptando ao novo-que-já-está-ficando-velho normal e vamos em frente para fazer acontecer as coisas que devem acontecer. 


Seguindo com as aulas, as iemenitas e a síria revelaram-se muito cultas, inteligentes e rápidas, deixando, muitas vezes, os rapazes para trás, esforçando-se para acompanhá-las. E quando chegou a unidade VIII do Básico 2, que versava sobre vestimentas, elas simplesmente arrasaram, assim como o egípcio (depois eu falo mais sobre o egípcio). 


Em relação à dinâmica das aulas, como professor tradicional que sou, sentia uma enorme falta de uma lousa com giz. Cheguei a cogitar usar, atrás de mim, uma daquelas lousas brancas com pincel atômico, mas logo caiu a ficha (e essa expressão mostra como sou mesmo das antigas) de que isso seria um ato insensato de resistência à modernidade. Seria como colocar uma carroça andando sobre os trilhos de um trem bala. Para meu alívio, e provavelmente dos alunos, descobri que, compartilhando uma tela em Word, eu poderia escrever ali o que quisesse, apagar, grifar... como se fosse uma lousa. Só não consegui resolver ainda como desenhar e fazer os rabiscos e setas que costumo fazer numa lousa pré-pandêmica, mas meu assistente, jovem e aplicado que é, já me disse de um tal aplicativo... ou melhor, um App... que ficou de lição de casa para mim para o próximo semestre. De qualquer forma, a opção da Word-lousa foi melhorando minha eficiência na medida em que eu me habituava com esse novo world. Contudo, diferentemente de outros meios como o Google Meet, ao compartilhar uma tela no Whats App, os alunos somem de vista. E novamente eu me sentia sendo visto por um buraco de fechadura, perguntando-me: "Será que eles ainda estão aí?" Estaria eu, como um doido, falando com a parede? Ou melhor, com a tela?


Outro fato relacionado à dinâmica das aulas refere-se às crianças, que não raro estavam nos colos das mães haitianas, ou nos microfones abertos das árabes. Eis uma situação inclusivamente difícil. Uma das iemenitas, por exemplo, tinha cinco filhos e, pelo menos alguns deles, provavelmente ficavam com ela durante a aula. Por vezes, outros alunos reclamavam do barulho (que realmente atrapalhava) e eu tentava contornar, pedindo que ela só abrisse o microfone quando fosse falar algo. Houve uma vez em que uma iemenita, por causa dos filhos, cortou a conexão para não atrapalhar a aula, o que cortou meu coração. Mas uma das haitianas assistia à aula com a câmera aberta, com a filhinha no colo porque, segundo a mãe, ela também queria participar da aula, e ainda dava graciosos tchauzinhos para todos nós. As diferenças culturais e de comportamento vinham à tona, ou melhor, à tela. 

Era também comum que alguns alunos haitianos assistissem às aulas do trabalho. Um pilotava empilhadeira em um atacadão, outro trabalhava na rua... e sempre tinha muito barulho. Um deles assistia à aula caminhando de lá para cá, certamente exercendo alguma tarefa concomitante a seu esforço de prestar atenção na aula. Tudo isso nos faz concluir que a inclusão exige de nós muito mais habilidade, jogo de cintura, ação. 


Ainda em relação à dinâmica das aulas, outro fato curioso ocorreu, o qual - puxa, mal posso descrevê-lo, dado meu quase leiguismo sobre esse assunto. Ocorreu que, na primeira aula sobre vestimentas, comecei a procurar na internet mais imagens sobre roupas e calçados femininos, masculinos, sociais, esportivos, sapatênis, roupas de frio etc, para mostrar para os alunos. No dia seguinte, não mais tarde que isso, comecei a receber uma enxurrada de anúncios de roupas no meu e-mail pessoal e nas redes sociais; tudo isso por causa dos tais algoritmos: uns serezinhos esquisitos que andam querendo influenciar e controlar nossas vidas. Até hoje tento me livrar desses anúncios! Mas fiquei esperto. Na segunda aula sobre vestimentas, peguei minhas próprias roupas e sapatos, e ainda emprestei outras da minha irmã para mostrar tudo ao vivo na aula e, assim, despistar os algoritmos. 


Alguns fatos mais pessoais também chamaram a atenção nesse semestre. Na aula sobre profissões, as iemenitas falavam eloquentemente: "Eu sou dona da casa", ao que eu corrigia para "dona de casa", explicando a diferença. Parecia que tinham forte orgulho em relatar isso, o que, em outras circunstâncias mais ocidentalmente preconceituosas, poderia parecer que ali estava alguém sem profissão. Nessa aula, o egípcio (cumprindo minha promessa de que iria falar mais dele) relatou que era designer de moda. Subitamente o palestino perguntou em um tom meio inquisidor: "você trabalha com roupa de mulheeeer"? Ao que o egípcio respondeu: "com fashion de homem e de mulher", pois ainda não conhecia a palavra "moda". Mas, a partir daí, o egípcio, talvez por ter se sentido meio intimidado, não mais abriu a câmera, ou seja, começou também a me olhar pelo buraco da fechadura. Ele só voltou a se mostrar na aula específica sobre vestimentas. (Parece que ficou confuso agora, não? É que as aulas sobre profissão vieram antes das aulas sobre vestimentas). E nessa aula, o egípcio mostrou todo seu potencial comunicativo; fez muitas perguntas e quis saber sobre muitas outras mais, como tipos de tecidos, de estampas, de acessórios... e eu mesmo tive que me esforçar para me atualizar sobre esse vocabulário: malha piquê, rayon, voal... Que Jean Piaget me perdoe, mas eu cheguei ao construtivismo meio sem planejar, no badalar dos sinos. 


Ainda nessa unidade sobre vestimentas, que deu muito pano para manga, eu me vi, literalmente, em uma saia justa. Na sexta feira anterior à aula (que ocorre aos sábados), eu ainda pensava com os meus botões: falaria ou não sobre roupas íntimas? Sim, não, sim, não, sim, não, sim não... até que, lá pelas duas da manhã, decidi por NÃO! Não, por duas razões: a primeira e mais alarmante delas, eu pensava nas expressões dos maridos se me vissem falando em calcinhas, sutiãs e anáguas... A segunda: eu nem conhecia bem o assunto... anáguas, saiotes e meias-calças ainda existem e são usadas? Assim decidido, reforcei o vocabulário sobre roupas casuais, moletons, enfim... coisas mais descomprometidas. 


Outro fato interessante ocorreu em julho, quando a aluna síria voltou para Damasco para visitar a família. Nesse mês, ela assistiu à aula de lá, o que causou muita curiosidade nos outros alunos, inclusive em mim. Eu tinha, como de costume, preparado a aula segundo a sequência das lições da apostila preparada pela Bibli-ASPA. Mas quando a aluna disse que estava assistindo à aula de Damasco, e percebi a curiosidade que isso despertou nos outros alunos, nem olhei mais para a aula que tinha preparado. Os alunos começaram a perguntar coisas para ela, do tipo: está calor aí? Que roupa você está usando? Tem bomba? Tiros? A aluna (resolvi não citar nomes para preservar a identidade, mas eu preferiria estar chamando os alunos pelos seus nomes), enfim, a aluna foi a protagonista da aula. Além de responder às questões mais simples, relatou que a cidade estava calma, mas que eles tinham uma hora de eletricidade e cinco horas sem, o que tornava difícil, por exemplo, conservar os alimentos; e que a água que recebiam em casa não era mais potável e, com aquele calorão, essa situação ficava pior. Mas também contou que ia ao Súq Hamedye (o mercado mais tradicional), o que me encheu de saudades da cidade em que eu havia passado quatro felizes meses. Essa foi, talvez, a aula mais dinâmica, em termos de participação ativa de todos os alunos interagindo entre si.


Outra questão mais pessoal refere-se ao palestino, que antes trabalhava como cozinheiro no Al Janiah, um badaladíssimo restaurante palestino de tendência esquerdista no centro de São Paulo. Eu cheguei a conhecer esse restaurante antes da pandemia e, talvez, até tenha cruzado com o palestino sem saber que ele viria a ser nosso aluno na Bibli-ASPA. Bem, ele teve que se mudar, em função da pandemia, para Miracatu, no Vale do Ribeira de Iguape. Ele era sempre bem descontraído e às vezes assistia à aula com um cachorrinho no colo e fazia o cãozinho acenar para os colegas de classe (talvez os maridos não tivessem gostado muito disso). Quando perguntávamos como era Miracatu, ele respondia: "Aqui tudo árvore, árvore. Só árvore e muita maskit" (tradução minha: mosquito). Uma vez em que ele voltou para São Paulo para fugir dos maskits e tentar retomar seu trabalho, passou pela minha casa, que fica quase em São Paulo, e rezou para Allah, lá mesmo no meio da minha sala. E contou que se casou e teve uma filhinha chamada Leila. 


Um outro fato me inquietou. No decorrer do semestre, os haitianos foram sumindo. Isso até que era meio normal, pois sempre estavam procurando um emprego ou um emprego melhor e, quando conseguiam, abandonavam as aulas ou apareciam só de vez em quando. Mas nesse primeiro semestre de 2021 eu fiquei alimentando certa mea culpa: será que eu teria dado mais atenção aos alunos árabes e negligenciado os haitianos, mais comumente presentes? Será que eu, por conhecer bem a língua francesa e menos a árabe, quis interagir mais com eles para praticar a língua? Que horror seria ter que admitir isso. Eu tentava justificar que "não, nem pensar", pois as aulas eram dadas em português, francês, árabe (mais ou menos) e inglês, já que alguns alunos árabes falam um bom inglês. Mesmo assim ainda tentava encontrar uma justificativa que me culpasse menos: uma das alunas haitianas, aquela que agora aparecia com a filhinha no colo, estava assistindo às minhas aulas há anos, bem antes de se tornar mãe! Talvez porque gostasse das aulas, mas acho que chegou uma hora em que ela não aguentou mais as repetições. Alguns haitianos... que assistiam à aula da rua, do trabalho... eu simplesmente não conseguia fazê-los participar muito bem da aula. Entravam na aula online e não falavam nada, não abriam a câmera e não interagiam... e eu pensava comigo se estavam realmente lá, tanto que fiquei em dúvida se os incluía na lista de alunos do semestre para fazer este relato crônico. Eles, os haitianos, me tocam muito, embora, algumas vezes, eu não tenha conseguido fazer muito por eles. Quem somos nós para não assumir nossas limitações...?


E agora, chegando o segundo semestre, a geopolítica nos trouxe, além dos haitianos e árabes, venezuelanos, nigerianos e, bem provavelmente, virão os afegãos. Os alunos falantes do espanhol têm uma característica comum e um tanto engraçada: dada a proximidade da língua, entendem bem, mas têm dificuldade de diferenciar as línguas, ou seja, são naturalmente fluentes no portunhol. Já os nigerianos têm mais dificuldade, mas, no dia a dia, se viram bem porque falam um ótimo inglês. 


Que venham e que sejam todos bem-vindos!


Texto de Luis Antonio Bittar Venturi


Nanami Sato
@Nanami | Bibli-ASPA
Seguir
Entre e deixe seu comentário