Um abraço de paz - Victor
Os acontecimentos recentes envolvendo o Afeganistão com certeza mexeram conosco. Impressionados, assistimos às imagens com dor no coração, nos perguntando se um dia viveremos em paz ou se ela é apenas outra mentira que nos contam, assim como a fada do dente ou o papai noel.
Em uma tentativa de encontrar minha paz, seja ela no passado, no presente ou, quem sabe, no futuro, acabei me lembrando do início da minha carreira como professor. Foi num projeto de extensão universitária na Universidade de São Paulo. Naquele momento eu havia completado apenas dois anos da graduação, era bem menos do que um meio geógrafo, como diria meu professor Luís. Assim como hoje, também assistia com tristeza a uma outra crise da humanidade, dessa vez vivida na Síria, que já se arrastava desde 2011. Foi diferente. Muitas imagens chegaram a nós por meio das redes sociais. Sem os filtros e limitações de tempo comumente associados à televisão ou aos grandes jornais, uma verdadeira enxurrada de rostos em lamentação, de gritos, de cidades arrasadas, entre outros gatilhos de tristeza, chegou a nós. E o sentimento de impotência era grande. Como fazer? Queria ajudar, mas estava longe. Curtir e compartilhar postagens não parecia ser a melhor maneira de contribuir.
Mas meu professor teve uma brilhante ideia. Criou um curso de extensão, dentro da universidade, para os refugiados, fossem eles da Síria ou de qualquer outro país. Assim poderíamos tentar ajudá-los de alguma maneira, mesmo que fosse apresentando a eles o país no qual haviam chegado. No fim das contas, fizemos muito mais que isso. Distribuímos cestas básicas, ensinamos português, informamos a eles sobre as possibilidades de revalidação de diploma, entramos em contato com advogados e com jornalistas interessados em ajudar, abrimos caminho para que novas iniciativas envolvendo a Universidade de São Paulo e outras entidades pudessem cooperar de modo a auxiliar no acolhimento e na inserção dos imigrantes no Brasil. Também vencemos um prêmio de melhor projeto de extensão universitária para o biênio de 2015 e 2016. O trote estudantil contou com doações para a nossa turma de alunos e a sala do professor Luís ficou cheia de mantimentos? sem falar na quantidade de formigas que apareceu por lá! Hahahah. A coisa foi tão linda que até mesmo o movimento estudantil concordou em abrir o piquete para usarmos as salas enquanto eles estavam fazendo greve, algo inédito.
Mas para mim o melhor de tudo foi poder ver e viver a paz. Ver com meus olhos, sentir na minha pele. Entrar na sala 1 do Departamento de Geografia às nove horas da manhã do sábado era como entrar em um miniplaneta Terra! A sala estava cheia, com alunos de todas as idades (até bebês), cores, religiões e falando línguas distintas. Todos cooperando, todos ali para aprender. Havia alunos de quase dezenove nacionalidades distintas, o que corresponde a aproximadamente dez por cento do número de países do mundo. Era quase como se cada mesa e cadeira estivessem sendo ocupadas por um representante de um país diferente. Com exceção da Oceania, e da Antártica, tínhamos representantes da América, da Europa (ah, Julie!), da África e da Ásia.
Todos ali querendo saber mais sobre esse país Brasil, que passara a ser sua nova casa. Todos atrás de respostas, de ajuda, do que pudessem ter para encontrar a tão sonhada paz. E estávamos ali justamente para ajudá-los a encontrar tudo isso. Todos juntos em um mesmo lugar, todos em paz, apesar das dificuldades que enfrentávamos em nossas vidas, pessoalmente. Mas ali, Butantã, no sábado, às nove da manhã, o mundo viu a paz entre seus habitantes. Viu que o aprendizado é uma janela para um mundo melhor, viu que podemos sorrir ao invés de chorar, desde que possamos construir pontes estendendo as mãos.
E no final, bem mais que uma visão, um toque em cheio no coração. Foi quando, assim que a aula acabou, o Cheikh Guingue, senegalês de um metro e noventa e cerca de 120 quilos que eu tinha visto apenas uma vez, se aproximou de mim, um brasileiro mirrado de um metro e setenta e setenta quilos, entre os vinte e dois e vinte e três anos. ?Professor, muito obrigado, a aula foi muito boa?. E me abraçou. Eu nunca tinha recebido um abraço com tanto amor. Uma lágrima escorreu do meu olho esquerdo. ?Mas, Cheikh, de onde veio esse abraço, cara?? Eis que ele responde: ?Professor, eu te abraço assim porque você é meu irmão, você é meu irmão?.
