UM RAPAZ DO MALI: história de refúgio e imigração - Nanami Sato

2017, sábado à tarde: sala da aula de português para refugiados e imigrantes na Bibli-ASPA - Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul, Países Árabes e África - Santa Cecília, centro de São Paulo. O rapaz alto, magro e bem apessoado era aluno assíduo, mas não anotava nada na aula, vinha observando Mariana Clini, professora voluntária. Intrigada, achou que ele não sabia ler. Com habilidade, dado o clima geral de camaradagem, aproximou-se dele e confirmou sua suspeita. Dispôs-se então a ajudá-lo após a aula.
Seckou Sacko, malinês de 28 anos, estava no Brasil desde 2014 e seu precário domínio do português lhe permitia dar conta do cotidiano de trabalhador do CEAGESP. Dada a insuficiência desse curto período de alfabetização, no semestre seguinte a instituição providenciou uma professora para alfabetizá-lo, embora fosse um processo que avançava lentamente.
Muito correto e cativante, Seckou criou laços afetivos na Bibli-ASPA e, em agosto de 2019, contou-nos que sua mulher, Kadiatou Diarouma, chegaria do Mali em setembro.
O voo procedente de Adis Abeba, Etiópia, pousou em São Paulo no dia 25 de setembro e, no dia 27, Kadiatou fez uma conexão para Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, para lá tentar obter o visto de entrada. No entanto, o governo boliviano não autorizou sua admissão e, por isso, ela seria trazida de volta a São Paulo e deportada.
Desesperado, sem notícias, preocupado com as péssimas condições enfrentadas pela esposa, quase sem se alimentar por dois dias, Seckou recorreu à Bibli-ASPA no dia 28. Passamos todos - o diretor Paulo Farah, as professoras Mariana e eu - buscando freneticamente contatos e notícias: foram acionadas a Defensoria Pública, a ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), a Missão Paz, além do Posto de Atendimento Humanizado a Migrantes, que recepciona pessoas deportadas e não-admitidas no aeroporto de Guarulhos. Por meio de funcionários da LATAM, conseguimos saber que Kadiatou desembarcaria de volta nessa mesma noite, em Guarulhos, para tomar o voo em direção a Adis Abeba durante a madrugada.
Os organismos acionados agiram com muita eficiência: Seckou comunicou mais tarde que Kadiatou e uma prima que estava com ela tinham sido recebidas pela Polícia Federal e acomodadas num hotel do aeroporto em Guarulhos, pondo fim a nossas angústias. No dia seguinte a Polícia Federal enviou uma intérprete para que elas pudessem fazer o pedido de refúgio e acomodou-as num táxi, enviando-as até o endereço de Seckou. A situação conflituosa do Mali, sob influência de grupos jihadistas, era então muito pior do que na época da chegada de Seckou ao Brasil.
A história do casal foi publicada no Facebook da Bibli-ASPA em 27/11/2019, revelando dados que desconhecíamos: Kadiatou tinha sido prometida quando tinha 4 anos a seu primo de segundo grau, que na época tinha 15 anos e, mesmo com pressão familiar para desistir do compromisso por estar o noivo no Brasil, ela insistiu no casamento, que foi realizado por procuração numa cerimônia na mesquita, com a presença das famílias.
A vida de casado e a chegada do filho Mohammad em agosto de 2020, já no contexto da pandemia do Corona vírus, impediram a frequência regular às aulas de alfabetização, mas a ligação afetiva de Seckou com a instituição se manteve. O casal seguiu sugestão das professoras da Bibli-ASPA não só para Kadiatou fazer o pré-natal e receber atendimento no Amparo Maternal no parto, como para vacinar a criança no posto de saúde, e manteve essa relação de confiança para pedir ajuda em questões relativas a documentação em geral.
Se a burocracia brasileira representa uma barreira para muitos nativos, torna-se quase intransponível para imigrantes com pouco domínio do português. Sempre nos chamou a atenção a capacidade do rapaz malinês de conseguir trabalho e dar conta da família, mesmo com domínio precário da escrita.
Em 2021, ele mudou-se para Santa Catarina, para trabalhar em empresa frigorífica. Ocorre que muitas empresas contratam pessoal qualificado para o abate halal (que segue os preceitos muçulmanos) de aves e bois, exigência do mercado a que destinam seus produtos. No entanto estava de volta a São Paulo meses depois: instabilidade e deslocamentos fazem parte da rotina na vida de refugiado e de imigrante.

Foto de agosto de 2021, enviada por Seckou de Santa Catarina, onde trabalhou.
No início de dezembro de 2021, Seckou e família estiveram na festa de confraternização da Bibli-ASPA e contaram sobre os planos de viajarem no final do mês para a França, onde tinham parentes. Dias antes do embarque, ele telefonou aflito para uma professora porque havia perdido o passaporte do filho, o que poderia impedir o embarque da família.
Informações desencontradas dadas pela Polícia Federal no aeroporto fizeram-no correr desnecessariamente a um cartório no último dia antes do Natal - o discurso da burocracia com seus meandros e o domínio precário que tem o imigrante da língua sempre são fontes de muito stress. Na verdade, ficamos sem saber exatamente como se deu o embarque da família, pois perdemos contato até recentemente, quando recebemos uma mensagem de Seckou contando que estava com a família em Nova York...
Ignoramos como se deu o trânsito da França para os Estados Unidos, mas o caso dele suscita uma série de reflexões, seja sobre o tratamento dispensado aos imigrantes pela burocracia e pelos órgãos do governo, seja sobre o papel dos organismos da sociedade civil, caso da Bibli-ASPA. Além do ensino de português, nossa instituição acabou atuando num espectro amplo, que foi do aconselhamento diante das solicitações da burocracia à intervenção diante da ameaça de deportação de Kadiatou, sem esquecer a indicação de instituições de saúde por ocasião do nascimento do filho Mohamad.
Mas ganha especial relevo a instabilidade da vida de refugiado e de imigrante. Deslocamento, nomadismo, desenraizamento, diáspora são denominações usadas para os tempos atuais, por caracterizarem uma "sociedade desorientada", nas palavras de Domenico de Masi. Itinerante, errante, vagabundo ou vagamundo são os adjetivos usados para os que estão fora da lógica do rendimento e do produtivismo de nossa sociedade, que cultua o desenvolvimento, a tecnologia, as mercadorias, a velocidade, o frenesi. Em meio a tudo isso, o homem, condenado à efemeridade, à obsolescência das coisas, à velocidade frenética das mudanças, fica inseguro, descentrado, fragmentado - porque obrigado a viver apenas o aqui e agora.
A parte mais atingida de todo esse desvario produtivista é a fatia da população mundial de refugiados e imigrantes, dividida entre a cultura de origem e a do novo país.
Amós Oz, numa palestra proferida em São Paulo em 2011, lembrou: "O imigrante é alguém que chega determinado a esquecer completamente o antigo país. Só que nunca conseguirá fazê-lo. E espera que no novo país todas as esperanças sejam concretizadas. Muito rapidamente percebe que não serão. (...) Além disso, imigrantes sempre se sentem inseguros, e sob a ameaça de uma vizinhança hostil os traumas do passado redobram."
A língua nativa, marca de identidade, de unicidade, deve ceder vez à língua local, necessária para enfrentar a vida. Para Zygmunt Bauman, "a dificuldade já não é descobrir, inventar, construir, convocar (ou mesmo comprar) uma identidade, mas como impedi-la de ser demasiadamente firme e de aderir depressa demais ao corpo." (BAUMAN, 1988, p. 114)
Em seu raciocínio, para viver numa ordem desordenada, onde o passado já não serve como referência para um futuro que não se sabe como será, a estratégia sensível "é manter curto cada jogo" (Idem, p. 113), ou seja, viver um dia de cada vez, aceitar jogar apenas jogos curtos, rápidos, "não se prender a um lugar, por mais agradável que a escala presente possa parecer (...). Proibir o passado de se relacionar com o presente. Em suma, cortar o presente nas duas extremidades, separar o presente da história" (Id. Ibid.).
O quadro traçado ajuda a compreender o contínuo fluxo de nossos alunos. Desaparecem alguns, outros chegam, todos eles necessitando aprender o português urgentemente. Como preparar as aulas, o material didático? Fica evidenciado, assim, que não podemos ministrar um curso convencional. Precisamos a todo momento encontrar o equilíbrio em meio ao movimento, o que nos leva a fazer determinadas opções, sejam elas quanto ao conteúdo a ser ensinado ou quanto ao material didático no qual nos apoiamos. Cada aula parece ser um eterno recomeçar, problematizando o ideal da integração pela palavra.
Afinal, de que integração falamos?
Pelas razões expostas, nem sempre essa integração à realidade brasileira é buscada ou desejada, mas, para dar-se a integração pela língua, é preciso que o falante interprete os sentidos dentro de contextos socioculturais concretos e que tenha contato com conteúdos referenciais e valores culturais característicos dos falantes do idioma.
Como toda situação de comunicação verbal se dá em um contexto sociocultural e histórico, para aprender uma língua não basta ter acesso a léxico e a regras de combinação de palavras: é preciso ter conhecimento de regras socioculturais que levem em conta o contexto. Em suma, saber como usar a língua é tão importante como a competência gramatical, pois não se pode perder de vista o status dos participantes, o propósito e as convenções da interação social, o que implica contato e familiaridade com a cultura e os costumes do Brasil.
Algumas vezes estudantes há mais tempo no Brasil revelam aspectos curiosos no que diz respeito ao que já aprenderam no dia a dia, por meio de amigos ou colegas de trabalho. Certa vez, ao explicar o sentido de "folga" e "folgado", ouvi a pergunta: "Folgado é a mesma coisa que vagabundo?" Quando observei que "vagabundo" era termo ofensivo, o aluno retrucou que os colegas de trabalho muitas vezes referiam-se jocosamente um ao outro como "vagabundos", o que mostra que, para dar-se a integração pela língua, é preciso que o falante interprete os sentidos dentro de contextos socioculturais concretos e que tenha contato com conteúdos referenciais e valores culturais característicos dos falantes do idioma.
Há muitos fatos acontecidos em sala de aula que obrigam sempre a refletir sobre o desafio de ensinar português como segunda língua à comunidade de refugiados e imigrantes, procurando equilíbrio em meio a um ambiente tão mutável. Cada aula é uma aula. É um ato de aprendizagem, especialmente para nós, professores.
Falantes nativos, lidamos com aspectos da língua que não percebemos e que muitas vezes não se encontram em gramáticas nem em livros, e os aprendizes querem regras ou explicações, o que nos leva não só a ter uma percepção desautomatizada da nossa própria língua, como a buscar interpretações para certos comportamentos linguísticos do brasileiro, como o emprego dos exclamativos "nossa!" e "minha nossa!". A última expressão, por exemplo, provocou uma pergunta de um aluno que já conhecia os possessivos: "Afinal, como é isso: é minha ou é nossa?". Nem sempre nos damos conta do caráter religioso e da matriz cristã dessas interjeições cotidianas, derivadas de "Nossa Senhora" "minha Nossa Senhora".
A preocupação com a identidade cultural do aluno exige que o professor flexibilize seu repertório para reconhecer os dados de outras culturas, como forma de estabelecer o caráter de alteridade da linguagem. Afinal, interculturalidade envolve "A predisposição em deslocar-se o próprio ponto de vista para dialogar com outras culturas, estabelecendo-se assim o caráter de alteridade e intersubjetividade da linguagem." (SÃO BERNARDO e BARBOSA, 2014, p. 146)
Os brasileiros, em geral, costumam referir-se à África como se fosse um continente de população negra com uma cultura só, africana. Mas nossos alunos desmontam esse estereótipo, pois a ideia de uma população majoritariamente negra não se estende à de países africanos como Egito, Tunísia, Argélia, Marrocos. E o mesmo se dá em relação a uma cultura africana única, se entendermos que cultura diz respeito "aos conhecimentos, às ideias, às práticas costumeiras e às crenças de um grupo no interior de uma sociedade e às maneiras como esses grupos existem na vida social." (ALVAREZ, 2002, p. 158). Por sua vez, Mirelle Amaral de São Bernardo e Lúcia Maria de Assunção Barbosa mencionam Lindsay, Robins e Terrel para lembrar: "Cultura está relacionada a grupo. A cultura é um grupo de pessoas identificadas pela história, valores e padrões de comportamento que compartilham." (SÃO BERNARDO e BARBOSA, 2014, p. 146)
A verdade é que alunos refugiados e imigrantes redimensionam nossa experiência docente, levando-nos a superar estereótipos, a desconfiar de modelos didáticos pré-concebidos, a entender que a realidade com todas as suas contingências se intromete nos cantos, nos silêncios, nas ausências da sala de aula. Muitas vezes a crise assola nossa prática: o assistencialismo de que se reveste é passível de crítica? Como como não atuar diante da ameaça de deportação da mulher de nosso aluno? Como ficar inerte diante de uma estrangeira grávida? Como não entregar cestas básicas aos alunos num contexto de pandemia?
E o nomadismo de nossos alunos também nos ensina - muitas vezes sem sucesso - a ter cautela com vínculos afetivos fortes, porque estamos destinados a ter de rompê-los ou, pelo menos, de interrompê-los... De qualquer forma, não hesito em afirmar o quanto senti ampliarem-se meus horizontes - emocionais e intelectuais - nestes anos de atuação na Bibli-ASPA.
BIBLIOGRAFIA
ALVAREZ, Maria Luísa Ortiz. Os fraseologismos como expressão cultural: aspectos de seu ensino em PLE. In: CUNHA, M.J.C.; SANTOS, P. (org.). Tópicos em português língua estrangeira. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2002.
BAUMAN, Zigmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
SÃO BERNARDO, Mirelle Amaral de e BARBOSA, Lúcia Maria. Interações virtuais e competência intercultural. In: BARBOSA, Lúcia Maria (org.). (Inter)faces (inter)culturais no ensino-aprendizagem de línguas. Campinas, SP: Pontes, 2014.
Notas.
Este texto deve muito às ideias apresentadas por Enid Yatsuda Frederico no texto "O ensino movediço do português para refugiados e/ou imigrantes ou Pedra que rola não cria limo", apresentado no "Seminário Internacional sobre Migrações, Refúgio e Deslocamentos": Ensino de língua portuguesa e cultura brasileira para refugiados e pessoas em situação de vulnerabilidade. (2017)
Foram também retomados tópicos desenvolvidos pela autora na mesa-redonda "De uma língua para outra" - com participação de Célia Pacheco, Mônica Nakajima e Simone Homem de Mello, na Casa Guilherme de Almeida, 25/8/2018.
LIVRO MIGRAÇÃO, EDUCAÇÃO E PARTILHA DE SABERES
2.347 palavras
