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Alzheimer bênção ou maldição?

20/09/2026 às 10:05
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Miriam Morata
@miriammorata | Arquiteta
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"Mamãe está pensativa, questionando tudo que viveu ou pelo menos aquilo de que se lembra, e se revolta com a doença, as dores e a dependência total. Às vezes, diz que tudo isso é fruto da sua covardia, porque nunca desafiou as regras da vida que lhe apresentaram, sempre viveu à sombra do meu pai e do meu avô.

No meio desse caos interno, ela ainda tenta encontrar um fio que a leve até o primeiro motivo, o primeiro impulso, o primeiro traço desse projeto de vida que ela criou e executou e agora parece escapar das suas mãos.

Procura erros, desculpas para a frustração e os “nãos” que disse à vida. Não nos permitimos aprender com o passado, ficamos presos a histórias de infelicidade e acreditamos que fracassamos.

Não existem fracassos, não existem perdas, tudo é aprendizado e tudo faz parte deste fascinante jogo da vida, que não tem perdedores nunca. Sempre ganhamos, mas insistimos em agarrar as mesmas cartas, com medo de perder o jogo.”

(Alzheimer diário do esquecimento)


Quando crianças nós aceitamos todas as regras e interditos, que nos são impostos; concordamos com tudo porque descobrimos que aceitar e concordar é uma chave para sermos amados.

“Que criança boazinha” – vem sempre acompanhado de um sorriso, ou carinho. Pronto! Descobrimos como sermos aceitos e amados.

E o tempo não consegue mudar essas regras, porque a principal regra sempre será – “Faça tudo o que puder para ser amado.”

Não ouse viver sem receber amor.

Simples assim. Em nome dessa nossa profunda necessidade de amor, abrimos mão de muitas coisas que nos são caras, sonhos, escolhas, gostos, hábitos, profissão, discursos... tudo deve se adequar à primeira e única regra que nos ensinaram – “Faça tudo o que puder para ser amado!”

Mamãe aprendeu essa regra e tentou se adequar durante toda a vida; agora parece que tudo isso está pesando. Ela olha para trás e não consegue gostar do que vê, então a natureza realizou seu último gesto de generosidade para com minha mãe, ajudou-a a esquecer.

A natureza se utiliza do Alzheimer para realizar o caminho de volta...

Primeiro confunde, afinal este mundo é complicado demais e sempre fingimos entender tudo. Será confusão, ou a constatação sincera de que nunca compreendemos o sentido de tudo isto?

Aos poucos apaga o presente, papai esqueceu que tinha contas para pagar e precisava urgente terminar o conserto da torneira; mamãe esqueceu as mágoas e a dor da saudade. Nesse momento somos expulsos da vida deles.

Em seguida começa a apagar o passado, e com ele as frustrações, medos, vergonha, fracassos, regras que impediram que o melhor desabrochasse... Papai esqueceu que foi menino pobre, que chegou do interior e precisava “vencer” na cidade grande, precisava deixar de ser invisível; mamãe preferiu apagar a frustração de não ser a costureira daquele atelier famoso, porque meu avô não permitiu.

Sem passado e nem presente, a mente começa a criar uma nova realidade, um mundo repleto de imagens e pessoas que não estão dispostos a me conhecer.

E agora eles estão em um mundo completamente inacessível, a todos os que fizeram parte do seu mundo, até então.

E depois de “limpar” a vida, quando tudo for apenas um papel em branco, o Alzheimer leva a voz, porque sem história não temos nada para dizer; paralisa os movimentos e a capacidade de engolir, porque nada mais neste mundo consegue alimentar essa Alma, aprisionada nesse corpo frágil e tão amado.

O Alzheimer é uma bênção, ou maldição?

Míriam visitando o inferno para tentar compreender alguma coisa."

Míriam Morata - trecho de Alzheimer recolhendo os pedaços

Miriam Morata
@miriammorata | Arquiteta
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