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Aprendendo o ofício de existir.

18/05/2026 às 11:12
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Miriam Morata
@miriammorata | Arquiteta
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“Mamãe está com diabetes e pressão normais, não toma mais os remédios, o médico suspendeu. Acho que o ALZ salva dos pequenos males, para tomar conta sozinho do corpo dela.

Ontem ela molhou 4 lençóis e 3 edredons, faz muito xixi e chora o tempo todo porque sente vergonha. Não sei o que mais causa sofrimento, se a doença ou a vergonha de não conseguir ir ao banheiro. Essas coisas são terríveis e nem se comparam aos delírios, porque nesse momento ela está lucida e com o orgulho e a dignidade feridos.

Às vezes penso que é melhor ficar fora do ar e não acompanhar a decrepitude; outras vezes não acho nada, só acompanho essa história, que também é minha, com um misto de medo e espanto.”

(Alzheimer diário do Esquecimento)

Um dia ela me disse - "Corpo é uma coisa e Espirito é outra, agora eu sei disso."

Nunca pensei que o corpo tivesse tanto poder sobre o Espirito, sempre acreditei que este corpo era apenas a embalagem de algo maior e mais sublime, mas as coisas não são bem assim... O corpo dá as cartas e a Alma joga.

Jogo difícil porque nunca conheceremos as regras, então inventamos algumas e depois elas mudam... e mudam... e mudam...

Um acidente, uma alteração no cromossomo, uma multiplicação anormal ou desregulada das células, neurônios que morrem e levam histórias com eles, uma dor que anuncia o inicio de um pesadelo... e as regras mudam.

Como é difícil a experiência de existir em um mundo limitado e denso, quando nos imaginamos eternos e sutis.

E eu tento a todo momento descobrir um resquício de Luz no xixi, no cocô, no vômito e no desespero silencioso dessa mulher que eu amo, que é responsável por minha vinda até este planeta azul e caótico.

Muitas vezes tive vontade de jogar as cartas no chão e sair do jogo; é muito tentador ouvir o chamado sedutor da desistência.

Mas quando mamãe me olhava com aqueles olhos assustados, quase suplicando por um pouco de alento, ou o abraço que parecia resgatá-la do temporal e trazer para o colo seguro do meu amor; eu esquecia tudo e abraçava aquele corpo frágil que fortalecia e nutria minha capacidade de ter esperança.

Esperança é coisa muda que a gente esconde de todo mundo, porque é frágil demais e não suporta muita realidade. E é essa coisa frágil que eu pensei que fosse cabo de aço, descobri que era só uma fita para embrulhar presente.

E todos os dias mamãe e eu inventávamos laços novos, para enfeitar o presente de mais um dia de vida.

Não sei se foi essa fantasia que não me permitiu desistir, ou se foi esse trabalho a 4 mãos, que realizei durante alguns anos, para que minha mãe exercesse o oficio de existir, com um pouco de dignidade e amor.

O que eu não sabia era que ela estava me ensinando o ofício de existir.

Míriam fazendo laços e amarrando cabos de aço, não sei até quando."

Míriam Morata - trecho de Alzheimer recolhendo os pedaços

Miriam Morata
@miriammorata | Arquiteta
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